- Estou dizendo, Bridget, aqueles garotos do 11 são muito estranhos.
- Os dois loiros? Eu sei, Mindy, eu que sei! Só fazem baderna.
- Não diria baderna, Bridget, eu diria mais: eles são coisa perigosa.
- O que quer dizer com isso?
-
O mais velho, ele grita com o outro o tempo todo. Sempre escuto
discussões, e se quer saber, acho que ele realmente caem no punho.
- Por que os dois brigam tanto se são só estudantes?
-
Os dois uma vírgula. Só um deles estuda. Aquele que sempre cumprimenta,
sabe? O outro fica em casa e sempre recebe um monte de gente suspeita
aí.
- Acho que estou começando a entender essa história, Bridget…
A
velha continuaria a fofocar se a porta do apartamento não houvesse sido
aberta de súbito com tanta violência. As duas quase foram para trás com
o ar que fora atirado contra o corredor daquele cortiço, arregalaram os
olhos miúdos de rugas, segurando-se uma na outra.
Era o loiro
mais velho. Semi-despido, com um cigarro barato nos lábios e
sobrancelhas cerradas. Olhou para as duas que se fizeram de
desentendidas, falando sobre o tempo ou qualquer outra coisa torpe. As
unhas coçaram o saco, e um pé foi colocado para fora do apartamentinho.
Elas olhavam, de esguelha, afinal, não eram só os universitários que
infestavam o cortiço que tinham seus segredos: aquelas donas de casa
poderiam passar a manhã inteira checando o peitoral de qualquer garoto
de no máximo vinte e três anos. William não escaparia daqueles olhares
pecaminosos para com sua integridade, que faziam as saias longas
tremerem naqueles dias de verão uivante.
- Aquele bastardo pegou meu jornal, Bridget.
- Eu sei. Você repetiu isso umas três vezes. E eu já sabia. Era o seu jornal.
- O que ele pode estar fazendo com ele? … será que…
As
velhas pararam por um instante, sentindo aquele fogo que com certeza
não era de menopausa ferver no corpo. Engoliram seco e foram resolver
isso, não o jornal, mas as gargantas secas, que foram molhadas por um
belo chá gelado (ainda que fossem moradoras do albergue mais fétido da
cidade, ainda era inglesas, afinal.)
O garoto do 12 também tomava
chá. Não era um chá de maçã gelado e barato como o delas, era um
tradicional chá preto, tinha gosto de caro. Provavelmente fora roubado.
Era um dos que o seu vô tomava quando não conseguia escrever, e assim
era: César estava completamente perdido. Certo de que estava cheio de
afazeres da faculdade, coisas importantes, coisas de gente grande, mas
queria escrever. Queria entrar no seu mundo de fantasia nem que fosse
por uns 20 minutos.
Parece que os tickets para sua Wonderland haviam
esgotado. Nada saia da ponta do seu lápis que costumava ser rápida e
certeira. Aquele gosto quente e cafeinado não havia ajudado em nada. Só
suava mais e mais, sim, o garoto calmo e meio babaca do 12, estava
extremamente nervoso.
Adentrando as paredes fedorentas do
estabelecimento, chegaríamos ao quarto que pertencia aos dois loiros
suspeitos, que geralmente gritavam um com o outro, riam demais ou
recebiam visitas nada convencionais.
Lá estava sentado ao chão o
loiro mais velho, com o jornal da senhora Bridget, fazendo o que parecia
ser… arte. Ele selecionava todas as imagens que lhe chamavam a atenção,
tudo que ao seus olhos era bonito ou interessante. Cortava as páginas
do jornal com um sorriso nos olhos, o que fazia-o parecer um escolar
fazendo um trabalho da aula de artes. Quando terminou de recortar as
imagens, as colou em um álbum grande e grosso. Guardou-o numa caixa
cheia de outros infinitos álbuns. Não se conteve em pegar um deles e
folear com cuidado.
Dessa vez, eram fotos. Fotos tiradas por ele
mesmo. Nunca avisa feito um curso fotográfico, mas depois que juntou
dinheiro o bastante para comprar uma câmera profissional, se fez amigo
de um punhado de fotógrafos que se encantavam com o carisma do rapaz.
Carisma que foi se perdendo aos poucos, e mais para frente desta
história vai desaparecer por completo, mas ainda permanecia em cada foto
que tirava.
William tinha um olhar torto sobre a sociedade. Era
infantil e errado, mas carinhoso. O que contava não era a habilidade com
a câmera, mas sim sua visão única através das lentes. Beavis era assim,
não conseguia traduzir em palavras o que sentia, para ele, o real era
muito óbvio - e não é para o resto - Logicamente, lhe faltavam bons
modos, sensibilidade e intuição; mas o cru, o nu, o biológico e o
concreto eram muito mais próximos do que qualquer um podia imaginar.
William nunca foi somente um príncipe caído sonhador, ele sabia muito
bem que seus pés estavam fixos ao chão. Ele só aprendeu a ver as coisas
como ele queria. E nas fotografias, ele conseguia expressar tudo aquilo.
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