segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A Lua e o Enforcado - 2


Foi a primeira vez que César pensou em atirar aquele relógio velho pela janela. Foi a primeira vez que ficou com vontade de jogar algo pela janela, na verdade. Estava possesso. Aquele tic-tac já marcava 3 horas. Nada, nenhuma inspiração, nadinha. Parecia que tinha perdido o sentido da vida. Havia chego ao ponto de lamber toda a xícara do chá que havia acabado, como se pudesse achar palavras ali. É, o inédito era que César estava realmente deprimido.
“Talvez uma volta lá fora me traga alguma inspiração…” Suspirou o moreno de traços espanhóis, abrindo a porta do apartamento que lhe pertencia.

- Bea, para de ser chato, vamos comigo!
- Eu já disse que eu não vou. Porra, será que eu vou ter que desenhar pra você entender? Ou gritar? - Inspirou ar nos pulmões e berrou: - EU NÃO VOU, PORRA!
Logo que saiu deu de cara com um loiro mais alto puxando outro para fora do apartamento. Já havia visto aquele cara, o mais baixo. Uma vez ele roubara o leite que havia sido deixado na sua porta. César havia visto tudo através da fechadura e não havia tido coragem para reclamar, afinal, ele parecia um pouco bravo. Como estava agora.
- Meus amigos estão loucos pra te conhecer. Você tem que ir, eu tô mandando. - Engrossou a voz, o loiro que apesar de parecer mais imponente na altura, tinha olhos e mãos gentis. Se notava só pelo jeito de segurar o braço do outro para puxa-lo, o que seria um ato violento se não fosse por aquelas mãos que pareciam ter um toque tão macio. O outro continuava carrancudo, com olhos apertados e dedos de pés descalços cravados no chão.
- E quem disse que EU quero conhecer eles? Um bando de viado, aproveita e dá o cu pra algum deles de uma vez, aposto que eles gozam guache. Imagina? UMA OBRA DE ARTE, SIR THOMAS!
- … isso não faz sentido algum, Beavis. Por favor, eu tô te pedindo, vamos comigo, sim? Eu juro que quando agente voltar eu…
Sir Thomas olhou para os lados antes de completar a frase, e achou o que estava procurando: alguém que pudesse escutar a conversa. Ele corou de imediato, e César faria o mesmo se não estivesse tão concentrado naquela pequena história. Era cotidiana, era banal, era engraçada; ele estava se divertindo.
Beavis permaneceu quieto e quando Thomas finalmente afrouxou o enlace no seu braço, entrou no apartamento e bateu a porta sonoramente. Puderam ouvir o som da chave virando duas vezes, assim, bem trancada. O loiro do lado de fora ficou imóvel por um tempo, deixando de olhar para o vizinho curioso para olhos os próprios sapatos de couro que foram molhados por algumas lágrimas. Saiu correndo dali, como uma donzela.




“… o que aconteceu com você?”
-  Nada. - O silêncio recebeu a resposta do moreno, que repousava em cima de um caderno encharcado de suor. Eram três horas da manhã, as nove, teria de ir para a faculdade, e já faziam mais de 48 horas que não escrevia nada. Levantou a cabeça e sorriu ternamente para sua própria sombra.
- Só um pouco de saudade do abuelo.
“Você está mentindo. Quando você está com saudade…. você faz minhas pernas andarem e liga minha mente, como um robô.”
- Desculpe. Não sei o que aconteceu comigo. - Desabafou, jogando a cabeça na superfície dura novamente, enquanto rodava o lápis em sua mão no seu próprio eixo. Olhou a garota sentada na beirada da cama. Ela mantinha a cabeça firme, olhando a lâmpada que iluminava sua cabeça. Aquela luz parecia dissipar sua existência holográfica.
“Saudade. Você sabe o quanto eu amo essa palavra. Não pode ser traduzida em…”
- … nenhuma outra língua. É uma sorte o abuelo ter nos educado em Portugal, não é?
“Então por que você me trouxe para cá?” - A voz vestida de branco ecoou na cabeça de César por bastante tempo, repetindo a mesma pergunta de sempre. Piscou duas vezes seguidas, e ela voltou para dentro de sua cabeça.
Seu puro dai, fora um escritor levemente prestigiado. Tinha um talento enorme, uma vontade infindável de contar histórias, e por isso deixou sua vila para aprender a escrever e a ler como um gajo. Deixou seu povo por egoísmo, mesmo sem saber direito o que significava essa palavra, vindo de um grupo tão unido. Com o passar do tempo formou sua própria família, até chegar perto de seus últimos dias, os quais ficou encarregado de educar seu único neto.
César, com sangue metade paisano, metade gitano, criou costumes derivados de todas as histórias que escutava do avô e dos livros que lia. Era como um edredom feito de remendos velhos, todos juntos para criar um novo mundo. Uma concepção que somente pertencia ao seu criador, e a mais ninguém. Apesar de não se dar conta disso, misturava o mundo real e o fictício com tamanha facilidade, que chegava a acreditar que apenas o que estava em sua cabeça importava. Seu avô tentava guiar seus passos, mas eles retrocediam automaticamente; não tinham o espírito aventureiro que corria no sangue roma. César aprendeu a ver as coisas do seu próprio jeito, sem se incomodar com o que os outros viam. Nunca teve contato com qualquer outra pessoa a não ser seu avô. Completou a escola primaria e secundária como um fantasma. O garoto era completamente ignorado, tanto pela sua raça, quanto pela sua distração constante. Aquilo não fora um grande problema, até que seu avô morrer por motivos triviais. Era o momento de iniciar uma vida adulta.
Levantou a cabeça e acariciou a caneca de chá quente que resistia tomar apesar do calor que ainda fazia naquela megalópole. Tomou um gole e se levantou, indo para a varanda novamente. Olhou para a porta do 12. Estava ficando claro. O carro continuava parado ali. Thomas não havia ido para lugar algum.
Talvez o outro loiro não o deixa-se entrar nunca mais.Ou talvez, quem sabe, os dois eram irmãos que não se davam bem. Bom, então alguma hora o outro iria ceder, afinal, se tratava de sua família. Não poderia ser tão frio assim, ou será que era? Para recusar ver os amigos de Thomas assim… não devia ser uma pessoa facíl de se lidar. Talvez esses amigos não gostassem do irmão de Thomas. Como típicos ingleses, deviam repudiar seu sotaque. Ah, sim, sotaque! Ele era americano, só podia ser. Mas, espera, eles eram irmãos, um inglês, outro americano… irmãos separados e depois forçados a viver juntos? Seria a morte dos pais que havia unido os dois novamente? Uma disputa pela herança, espera, isso não faria sentido, se sim, não estariam vivendo em um buraco desses….
- Está tudo bem com você? - César acordou do transe de seus pensamentos com uma voz doce ao pé de seu ouvido e uma mão grande no ombro. Chacoalhou a pequena cabeça e virou-se para o lado. Era o loiro alto, com um sorriso plástico no rosto, que quase se derretia com aqueles raios de sol infernais. Por que estaria mal…? Um minuto.
Já era dia. Provavelmente umas sete da manhã. E César estava ali, ainda, sonhando acordado com assuntos que não lhe diziam respeito. Piscou os olhos algumas vezes e respondeu como deveria ser feito:
- C-Claro. Está tudo b-bem. - Deixou escapar seu sotaque mais do que devia, e resolveu que não ia falar mais nada dali para frente.
- Ah, desculpe. Me parecias um pouco abatido, não sei. Estupidez minha atrapalhar-te. - Se abatido queria dizer sem dormir por mais de dois dias, ele estava certo. - Meu nome é Thomas. Qualquer problema, sinta-se a vontade para bater na nossa porta, sim?
E o loiro tirou uma chave do bolso e adentrou o apartamento. Por que ele não havia feito isso antes? O que impedia-o de dormir na própria cama ao invés do assento do carro? César continuou ali, abatido. Alguns minutos depois, foi preparar-se para a faculdade.

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