Sem dúvidas, a vida é sem graça para um suicida fracassado. Porque,
claro, o principal objetivo dessas pessoas é necessariamente não ter uma
vida. Mas os que tentaram pular do maior edifício do mundo, no dia em
que aconteceu o maior atentado terrorista já visto, e, por ironia de
algum Deus filho da puta, sobreviveram, ah, esses vivem os dias mais
desgraçados. Agora Gerard tem a obrigação de continuar vivo, mesmo tendo
cada vez mais motivos para querer apagar sua existência. Tudo que cerca
sua gelada cama de hospital é o medo vendido na TV e as palavras
descartáveis de esperança vindas de rostos desconhecidos, que realmente
não se importam com o que se está passando em sua cabeça. Ele só não
esperava conhecer a pessoa que vai mudar sua concepção de mundo e de
vida justamente naquele hospital depreciativo. Frank, o adolescente punk
de cabelos de fogo se encarregará de leva-lo até o fim do mundo, onde
estar vivo ou morto é de ínfima importância.
Capítulo 1: Fuck The Wail
Ele escutou uma melodia. Não parecia uma melodia inédita, sabia que
era inventada: não existia, era de música nenhuma. Não podia ser: não
era boa. Mesmo que fosse péssima, continuava sendo hipnotizante. O fez
abrir os olhos.
A fonte da melodia estava parada perto da janela.
"Está me vigiando"
Quem estava cantando era uma criança.
"É pequeno"
Seu rosto estava coberto por uma máscara de oxigênio.
"Por que está quente aqui?"
Seu cabelo era vermelho sangue.
"Por que está aqui?"
Ele continuava olhando a pessoa deitada na cama de hospital, cantando e apenas cantando.
"Como um desconhecido entrou no meu quarto? Enfermeira...".
O garoto de cabelos pretos e bagunçados então notou: uma das cortinas
estava pegando fogo. A faísca vinha do isqueiro de uma pequena,
vermelha e intrusa figura.
Gerard sentiu pânico. Seu instinto não foi gritar, ele apenas
arregalou os olhos e apertou os dedos nos lençóis gelados da cama.
Certo, agora ele precisava de um plano de fuga infalível.
O ligeiro punk-de-cabelo cor rubi continuou a melodia abafada pela
máscara plástica como um disco quebrado. O moreno não entendia o que a
letra da música dizia, e aquela naturalidade toda que o garoto tinha em
pronunciar as palavras o fazia querer gritar! Sua testa pingava suor na
cama, petrificado pela sensação de estar sendo vigiado. Era melhor
aquilo ser um pesadelo.
As rodinhas do tanque de oxigênio que acompanhava o menino
escorregaram pelo chão liso lentamente, até a porta. O pequeno havia ido
embora, marchando ao som de sua própria música desajustada, com a
irônica cortesia de fechar a porta com modos de cavalheiro.
As chamas na cortina consumiam o tecido com voracidade, em uma
rapidez velada e perigo iminente. Gerard sabia o que o fogo podia fazer.
Ele sentia medo do fogo, não, ele não sentia medo do fogo, ele sentia
medo desse sentimento de temer a morte. O rapaz dobrou o abdómen,
empurrando a mesinha que servia de apoio na hora das refeições, deixando
que as rodas deslizassem-na até a extremidade da cama. Ele curvou-se
até conseguir ficar apoiado no joelho. O joelho. Era o único que tinha. O
fogo devorou a ponta da cortina, que caiu no chão em cinzas
despedaçadas, leves como penas. Aquilo assustou Gerard. A lembrança do
cheiro de carne queimada invadiu o seu cérebro enquanto ele tentava
cambalear para frente, acabando por bater a testa na ponta da mesa que
havia empurrado.
A ponta afiada abriu um rasgo em sua testa, o risco vermelho dividia
sua face apavorada, molhada e chorosa. A adrenalina corria em uma
estrada de suor e sangue. Conseguiu sair da cama. O inseto rastejou pelo
chão de lava, mas os braços não eram fortes o bastante para arrastar o
corpo gorduroso (talvez naquele momento ele se arrependesse de todas as
vezes que deixou de comparecer às aulas de educação física). As unhas
tentaram se agarrar a algo, mas, merda, o chão era liso. Como uma barata
de asas cortadas, o rapaz se debateu no chão sabendo que seria o fim.
As situações de risco, bem, havia uma relação de sexo não consentido
entre elas e Gerard. Daquele tipo em que a vítima acaba desenvolvendo
uma Síndrome de Stockholm. Era tão prejudicial e previsível que agora
ele estava entre pedir para Deus salva-lo ou receber as boas vindas de
Jesus Cristo, com malas prontas e um sorriso satisfeito no rosto. O
Espírito Santo não se importava. Ele não podia correr agora. Se pelo
menos ainda tivesse a perna direita? Não, nem assim. Era fraco demais
para correr daquelas chamas.
Ele escutou o barulho da porta abrindo. A enfermeira que vinha com
uma bandeja carregando um delicioso almoço soltou um grito abafado.
Gerard levantou os olhos para ela, e tentou se arrastar mais um pouco,
movendo-se poucos centímetros no chão. Ela não gritava pelo fogo. Na
verdade, aquilo estava longe de ser o mar de chamas em que Gerard
acreditava estar. Eram só algumas chamuscas na cortina, nada que não
pudesse ser apagado com um copo de água. O que assustava, no entanto,
era a face de pura agonia no rosto daquele rapaz. A mulher chamou ajuda,
um homem mais forte prontificou-se a carregar o garoto nos braços como
se ele fosse um bebê, que chorava e esperneava, pedindo ajuda aos céus.
//
- Você me subestima. Acha que eu não sei o que você quer.
Definitivamente uma saia curta demais para se usar no trabalho. Com
as pernas cruzadas, aquele pedaço de tecido não cobria as coxas
volumosas da Dra. Lindsey. Sua boca cheia de batom vermelho e cabelo
preto demais perto dos ombros evidenciava a fartura de sua carne, que se
não fosse portada pela elegância daquela mulher, seria descartada por
qualquer homem que sonha com um relacionamento sério e uma família
estável. Não, a doutora não era cobiçada pelos homens do prédio. Ela era
casada. Não, não era somente isso, porque as pessoas realmente não se
importam com isso, o diferencial é que ela tinha sumo respeito de todos,
conquistado com muita determinação e competência. Os casos resolvidos
por ela são citados em conferências em universidades de grande porte. Os
outros médicos sempre sabem a quem pedir conselhos quando precisam. Os
pacientes sempre tem certeza que podem confiar na Dra. Lindsey, afinal, é
a Dra. Lindsey.
A oscilação do inspirar e expirar de baixo da máscara de oxigênio ia e
vinha como uma valsa. O garoto do cabelo rubi estava sentado
pacientemente em sua cama de hospital, coberto de lençóis confortáveis.
Seu isqueiro havia sido confiscado.
- Você deve estar pensando que eu vim aqui te mandar guardar
todas as suas merdas para você finalmente ir para a ala psiquiátrica,
não é?
Os olhos verde-amendoados do garoto piscaram calmamente. Eles eram
grandes e redondos como os de um bebê. Já era um adolescente de 16 anos,
mas continuava cativando qualquer mulher com instinto maternal com
eles. Com Lindsey, não era bem assim e era por isso que ela era
encarregada daquele complicado paciente.
- Esse é o seu quarto. Totalmente seu, Frank. Seus pais pagam por
ele, afinal, você não passa de um filhinho de papai. Você pode botar
fogo nele se quiser. Não vou ser eu quem vai pagar mesmo. – A
mulher levantou-se de seu assento, indo até a janela do cômodo. Mantinha
um tom de voz parecido com o toque suave de seus dedos no tecido da
cortina.
- Mas não tem graça. Você quer mais. Eu entendo. Eu juro que entendo. – Ela olhou para Frank, sabendo que receberia uma risadinha fina em resposta. – Mas você tem que crescer, de uma vez por todas. E crescer significa pensar nas consequências.
Lindsey andou até a cama do pequeno punk, e sentou-se na ponta dela.
Olhou diretamente para os olhos do seu paciente, ignorando aquele
sorriso de moleque malcriado que era evidente até mesmo de baixo daquela
máscara de oxigênio.
- Você sabe por que aquele garoto está aqui, não sabe? A televisão não para de falar sobre isso.
- Eu não vejo TV. – A voz masculina soou rouca como sempre, baixa pelo plástico que não deixava o tom atingir uma maior magnitude.
- Claro que não. – A boca vermelha soltou um riso quase alto – Seu pai fez questão de comprar uma nova quando você quebrou a daqui.
- Mais da metade dos americanos considera a televisão como sua
principal fonte de informação. Mais da metade dos americanos acredita
veemente nas notícias e informações veiculadas de acordo com os
interesses das corporações. O objetivo do terrorismo não é matar. É
intimidar. A mídia é o instrumento de propagação e junto dela...
Os discursos de Frank sempre eram assim. Tinham bases inteligentes,
mas propostas pouco praticáveis. Lindsey sabia onde aquilo ia terminar,
na solução que sempre era a primeira opção na cabeça do pequeno punk:
explodir o mundo. A verdade era que Frank confiava suficientemente na
doutora para compartilhar seus princípios anarquistas durante as
consultas.
- Não fique tagarelando. Seu pulmão ainda está em recuperação. Não ouse perambular pelo corredor de pés descalços.
O ruivo deu de ombros, sem a gana de precisar concluir seu
raciocínio. Aquele papo dela era o de sempre: Lindsey advertia, Frank
descumpria suas regras e era assim que as coisas funcionavam no Hospital
Mount Sinai. A mulher sovou a canela do menino por cima dos lençóis,
sem sorrir para precisar demonstrar o sentimento caloroso que tinha por
ele. Apesar de saber que Frank voltaria a desobedece-la, precisava da
confirmação de que ele havia entendido tudo que ela havia dito.
Frank murmurou um “tá” monossílabo, acomodando-se na cama ao que sua
médica de levantava dela. A doutora caminhou até a porta, e antes de
abri-la, virou-se com um olhar castanho desconfiado, seguido de uma voz
firme e triunfante.
- Então você sabia. – O garoto apenas sorriu de modo
provocativo, sem precisar responder. Queria que ela fosse embora logo,
para poder dormir e quem sabe ver um pouco de TV, mas Lindsey não se
moveu dali, preparada para questionar mais uma vez.
- Por acaso, você... conhece esse rapaz, Frank?
- Por que eu conheceria?
- Ele é de Jersey. De Newark.
Nenhuma resposta. Era o que bastava, ela sabia que Frank havia
gastado demais do seu precioso tempo para ficar trocando meia dúzia de
palavras com uma médica.
- Certo. Amanhã você vai pedir desculpas ao garoto e depois
disso, não se aproxime mais dele. Não queremos mais problemas, não é?
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