quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

F.T.W! Capítulo 1: Fuck The Wail

Sem dúvidas, a vida é sem graça para um suicida fracassado. Porque, claro, o principal objetivo dessas pessoas é necessariamente não ter uma vida. Mas os que tentaram pular do maior edifício do mundo, no dia em que aconteceu o maior atentado terrorista já visto, e, por ironia de algum Deus filho da puta, sobreviveram, ah, esses vivem os dias mais desgraçados. Agora Gerard tem a obrigação de continuar vivo, mesmo tendo cada vez mais motivos para querer apagar sua existência. Tudo que cerca sua gelada cama de hospital é o medo vendido na TV e as palavras descartáveis de esperança vindas de rostos desconhecidos, que realmente não se importam com o que se está passando em sua cabeça. Ele só não esperava conhecer a pessoa que vai mudar sua concepção de mundo e de vida justamente naquele hospital depreciativo. Frank, o adolescente punk de cabelos de fogo se encarregará de leva-lo até o fim do mundo, onde estar vivo ou morto é de ínfima importância.


Ele escutou uma melodia. Não parecia uma melodia inédita, sabia que era inventada: não existia, era de música nenhuma. Não podia ser: não era boa. Mesmo que fosse péssima, continuava sendo hipnotizante. O fez abrir os olhos.
A fonte da melodia estava parada perto da janela.
"Está me vigiando"
Quem estava cantando era uma criança.
"É pequeno"
Seu rosto estava coberto por uma máscara de oxigênio.
"Por que está quente aqui?"
Seu cabelo era vermelho sangue.
"Por que está aqui?"
Ele continuava olhando a pessoa deitada na cama de hospital, cantando e apenas cantando.
"Como um desconhecido entrou no meu quarto? Enfermeira...".
O garoto de cabelos pretos e bagunçados então notou: uma das cortinas estava pegando fogo. A faísca vinha do isqueiro de uma pequena, vermelha e intrusa figura.
Gerard sentiu pânico. Seu instinto não foi gritar, ele apenas arregalou os olhos e apertou os dedos nos lençóis gelados da cama. Certo, agora ele precisava de um plano de fuga infalível.
O ligeiro punk-de-cabelo cor rubi continuou a melodia abafada pela máscara plástica como um disco quebrado. O moreno não entendia o que a letra da música dizia, e aquela naturalidade toda que o garoto tinha em pronunciar as palavras o fazia querer gritar! Sua testa pingava suor na cama, petrificado pela sensação de estar sendo vigiado. Era melhor aquilo ser um pesadelo.
As rodinhas do tanque de oxigênio que acompanhava o menino escorregaram pelo chão liso lentamente, até a porta. O pequeno havia ido embora, marchando ao som de sua própria música desajustada, com a irônica cortesia de fechar a porta com modos de cavalheiro.
As chamas na cortina consumiam o tecido com voracidade, em uma rapidez velada e perigo iminente. Gerard sabia o que o fogo podia fazer. Ele sentia medo do fogo, não, ele não sentia medo do fogo, ele sentia medo desse sentimento de temer a morte. O rapaz dobrou o abdómen, empurrando a mesinha que servia de apoio na hora das refeições, deixando que as rodas deslizassem-na até a extremidade da cama. Ele curvou-se até conseguir ficar apoiado no joelho. O joelho. Era o único que tinha. O fogo devorou a ponta da cortina, que caiu no chão em cinzas despedaçadas, leves como penas. Aquilo assustou Gerard. A lembrança do cheiro de carne queimada invadiu o seu cérebro enquanto ele tentava cambalear para frente, acabando por bater a testa na ponta da mesa que havia empurrado.
A ponta afiada abriu um rasgo em sua testa, o risco vermelho dividia sua face apavorada, molhada e chorosa. A adrenalina corria em uma estrada de suor e sangue. Conseguiu sair da cama. O inseto rastejou pelo chão de lava, mas os braços não eram fortes o bastante para arrastar o corpo gorduroso (talvez naquele momento ele se arrependesse de todas as vezes que deixou de comparecer às aulas de educação física). As unhas tentaram se agarrar a algo, mas, merda, o chão era liso. Como uma barata de asas cortadas, o rapaz se debateu no chão sabendo que seria o fim. As situações de risco, bem, havia uma relação de sexo não consentido entre elas e Gerard. Daquele tipo em que a vítima acaba desenvolvendo uma Síndrome de Stockholm. Era tão prejudicial e previsível que agora ele estava entre pedir para Deus salva-lo ou receber as boas vindas de Jesus Cristo, com malas prontas e um sorriso satisfeito no rosto. O Espírito Santo não se importava. Ele não podia correr agora. Se pelo menos ainda tivesse a perna direita? Não, nem assim. Era fraco demais para correr daquelas chamas.
Ele escutou o barulho da porta abrindo. A enfermeira que vinha com uma bandeja carregando um delicioso almoço soltou um grito abafado. Gerard levantou os olhos para ela, e tentou se arrastar mais um pouco, movendo-se poucos centímetros no chão. Ela não gritava pelo fogo. Na verdade, aquilo estava longe de ser o mar de chamas em que Gerard acreditava estar. Eram só algumas chamuscas na cortina, nada que não pudesse ser apagado com um copo de água. O que assustava, no entanto, era a face de pura agonia no rosto daquele rapaz. A mulher chamou ajuda, um homem mais forte prontificou-se a carregar o garoto nos braços como se ele fosse um bebê, que chorava e esperneava, pedindo ajuda aos céus.

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- Você me subestima. Acha que eu não sei o que você quer.
Definitivamente uma saia curta demais para se usar no trabalho. Com as pernas cruzadas, aquele pedaço de tecido não cobria as coxas volumosas da Dra. Lindsey. Sua boca cheia de batom vermelho e cabelo preto demais perto dos ombros evidenciava a fartura de sua carne, que se não fosse portada pela elegância daquela mulher, seria descartada por qualquer homem que sonha com um relacionamento sério e uma família estável. Não, a doutora não era cobiçada pelos homens do prédio. Ela era casada. Não, não era somente isso, porque as pessoas realmente não se importam com isso, o diferencial é que ela tinha sumo respeito de todos, conquistado com muita determinação e competência. Os casos resolvidos por ela são citados em conferências em universidades de grande porte. Os outros médicos sempre sabem a quem pedir conselhos quando precisam. Os pacientes sempre tem certeza que podem confiar na Dra. Lindsey, afinal, é a Dra. Lindsey.
A oscilação do inspirar e expirar de baixo da máscara de oxigênio ia e vinha como uma valsa. O garoto do cabelo rubi estava sentado pacientemente em sua cama de hospital, coberto de lençóis confortáveis. Seu isqueiro havia sido confiscado.
- Você deve estar pensando que eu vim aqui te mandar guardar todas as suas merdas para você finalmente ir para a ala psiquiátrica, não é?
Os olhos verde-amendoados do garoto piscaram calmamente. Eles eram grandes e redondos como os de um bebê. Já era um adolescente de 16 anos, mas continuava cativando qualquer mulher com instinto maternal com eles. Com Lindsey, não era bem assim e era por isso que ela era encarregada daquele complicado paciente.
- Esse é o seu quarto. Totalmente seu, Frank. Seus pais pagam por ele, afinal, você não passa de um filhinho de papai. Você pode botar fogo nele se quiser. Não vou ser eu quem vai pagar mesmo. – A mulher levantou-se de seu assento, indo até a janela do cômodo. Mantinha um tom de voz parecido com o toque suave de seus dedos no tecido da cortina.
- Mas não tem graça. Você quer mais. Eu entendo. Eu juro que entendo. – Ela olhou para Frank, sabendo que receberia uma risadinha fina em resposta. – Mas você tem que crescer, de uma vez por todas. E crescer significa pensar nas consequências.
Lindsey andou até a cama do pequeno punk, e sentou-se na ponta dela. Olhou diretamente para os olhos do seu paciente, ignorando aquele sorriso de moleque malcriado que era evidente até mesmo de baixo daquela máscara de oxigênio.
- Você sabe por que aquele garoto está aqui, não sabe? A televisão não para de falar sobre isso.
- Eu não vejo TV. – A voz masculina soou rouca como sempre, baixa pelo plástico que não deixava o tom atingir uma maior magnitude.
- Claro que não. – A boca vermelha soltou um riso quase alto – Seu pai fez questão de comprar uma nova quando você quebrou a daqui.
- Mais da metade dos americanos considera a televisão como sua principal fonte de informação. Mais da metade dos americanos acredita veemente nas notícias e informações veiculadas de acordo com os interesses das corporações. O objetivo do terrorismo não é matar. É intimidar. A mídia é o instrumento de propagação e junto dela...
Os discursos de Frank sempre eram assim. Tinham bases inteligentes, mas propostas pouco praticáveis. Lindsey sabia onde aquilo ia terminar, na solução que sempre era a primeira opção na cabeça do pequeno punk: explodir o mundo. A verdade era que Frank confiava suficientemente na doutora para compartilhar seus princípios anarquistas durante as consultas.
- Não fique tagarelando. Seu pulmão ainda está em recuperação. Não ouse perambular pelo corredor de pés descalços.
O ruivo deu de ombros, sem a gana de precisar concluir seu raciocínio. Aquele papo dela era o de sempre: Lindsey advertia, Frank descumpria suas regras e era assim que as coisas funcionavam no Hospital Mount Sinai. A mulher sovou a canela do menino por cima dos lençóis, sem sorrir para precisar demonstrar o sentimento caloroso que tinha por ele. Apesar de saber que Frank voltaria a desobedece-la, precisava da confirmação de que ele havia entendido tudo que ela havia dito.
Frank murmurou um “tá” monossílabo, acomodando-se na cama ao que sua médica de levantava dela. A doutora caminhou até a porta, e antes de abri-la, virou-se com um olhar castanho desconfiado, seguido de uma voz firme e triunfante.
- Então você sabia. – O garoto apenas sorriu de modo provocativo, sem precisar responder. Queria que ela fosse embora logo, para poder dormir e quem sabe ver um pouco de TV, mas Lindsey não se moveu dali, preparada para questionar mais uma vez.
- Por acaso, você... conhece esse rapaz, Frank?
- Por que eu conheceria?
- Ele é de Jersey. De Newark.
Nenhuma resposta. Era o que bastava, ela sabia que Frank havia gastado demais do seu precioso tempo para ficar trocando meia dúzia de palavras com uma médica.
- Certo. Amanhã você vai pedir desculpas ao garoto e depois disso, não se aproxime mais dele. Não queremos mais problemas, não é?

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