O que havia restado das cortinas tinha sido retirado. O vaso de
flores foi atualizado com novos ramos, como todos os dias. O cheiro de
desinfetante era impecável. Gerard não conseguia mais ver os raios de
sol. As cortinas novas eram mais pesadas do que as que foram destruídas,
quase como barras de ferro de uma cela solitária.
- Gerard, como está hoje?
- Bem...
A psiquiatra estava acostumada a receber essa resposta. Era a mesma
de todos os dias, nesse tom calmo e suave. A voz daquele rapaz parecia a
de um anjo. Ele nunca encontrava os olhos da mulher durante as sessões,
sempre ficava a esfregar os próprios dedos pacientemente, cauteloso a
cada palavra que pronunciava.
- Desenhou algo hoje? – Ela perguntou com um sorriso, atenta a ele. Mesmo que nunca fosse olhada, não quebraria o contato visual com o paciente.
- Não... eu só dormi.
Não havia muito para se fazer naquele quarto. Ao contrário da
hospedagem de Frank, não havia uma TV para ser assistida. Tudo era
meticulosamente calculado, desde a comida que Gerard ingeria até o
ângulo em que o sabão líquido era disposto ao lado da pia.
- Não quer falar sobre o que aconteceu ontem?
Gerard apenas balançou a cabeça negativamente. Sessão encerrada.
Nenhum progresso desde que fora internado. Os médicos entendiam que
ainda era cedo. Não fazia nem um mês que estava internado, era tudo
muito recente em sua cabeça. Se pelo menos tivessem alguma ideia do que
se passava na mente dele, poderiam ajuda-lo.
Mas Gerard não queria ajuda. Ele continuava quieto, submisso,
esperando que a porta de saída chegasse até si ou que alguma enfermeira
lhe desse uma overdose de morfina por acidente. O método psicológico
mais adequado naquele momento era esperar aquilo passar, o tempo que
demorasse.
Não havia necessidade para encarar os dedos agora. Gerard só
enxergava a parede branca, como uma cortina de fumaça e pó. O coto já
não doía tanto como na noite passada, mas ainda estava consideravelmente
inchado. Nota mental: nunca mais se arrastar no chão usando sua perna
direita (que já não existe mais).
Naquele dia 11 de setembro, quando ainda tinha as duas pernas
grudadas ao tronco, Gerard subiu cinco andares do World Trade Center.
Cada degrau daquela escada pressurizada, vazia e deserta, representava
um motivo. É claro que já que existiam elevadores, mas eles são feitos
para pessoas emocionalmente estabilizadas.
1. Eu não tenho mais um emprego
2. Eu não gostava do meu antigo emprego
3. Eu não gosto do que faço
4. Eu não vou conseguir outro emprego
5. Eu não quero outro emprego
6. Eu não posso fazer do mundo um lugar melhor
7. Eu vou morrer sozinho
8. Eu quero morrer sozinho
9. (continua)
O rapaz podia sentir nos ossos a geada industrial da estrutura
metálica do prédio, penetrando sua mente com os ensaios mais
consistentes sobre suicídio. A respiração estava ficando rala. Era o
sinal de que não precisava mais dela. Seus pulmões podiam ficar vazios,
seu sangue não precisava mais de oxigênio: aquilo era perfeito, poderia
morrer antes mesmo de chegar no terraço do edifício mais alto do mundo.
De acordo, era mais limpo. Suas tripas não iam ficar espalhadas pela
avenida principal, os carros apressados não precisariam amassar sua
cabeça com os pneus duros. Ninguém precisaria ligar. De
qualquer forma, ligariam, enquanto ele já estivesse morto? Não poderiam
culpar um morto por sujar a calçada de restos humanos. E quem se
importaria? A rua estava imunda de tantos outros dejetos. Da hipocrisia
da qual Gerard estava fugindo, da ganância que recheava o prédio de
números e contas e números e números.
Teve que parar de subir os degraus. Tomou seu tempo, inspirou e
expirou. Era sua última chance. Não havia mais tempo para listar motivos
para não cometer suicídio. Tinha impressão de que não conseguiria nem
chegar até o terceiro item, se fizesse uma. As luzes com sensor de
movimento se apagaram. Gerard não conseguia mais se mover. Suas pernas,
de tão cansadas e frias, estavam paralisadas. Um isqueiro branco que
estava no bolso serviu para iluminar seus sapatos encardidos. Uma
esperança. Eram cinco andares para o inferno e 105 para o céu.
Naquele momento, um forte estrondo quase ensurdeceu o suicida, como
se o céu tivesse sido rasgado por uma força divida. Bem, nesse momento,
somente nesse momento, ele sabia que iria morrer.
//
“Quase um mês depois do dia 11 de setembro, as
autoridades ainda não chegaram ao número preciso de mortes que o
atentado terrorista causou. Estima-se que milhares de pessoas perderam
suas vidas enquanto menos de 50 cidadãos foram resgatados com vida do
Edifício World Tarde Center. Entre os sobreviventes estão pacientes em
estado grave.
Gerard Arthur Way, de 23 anos, trabalhava no edifício
quando a primeira torre foi atingida por um avião. Ele teve seu corpo
parcialmente esmagado pela estrutura de ferro do prédio. O estado do
rapaz, que teve a perna amputada, é estável, apesar de (...)”
- Achei que você não visse TV. – A voz feminina da médica
não poderia ser mais sarcástica. Ela adentrou o quarto e simplesmente
tirou a televisão da tomada, interrompendo a programação como um
comercial chato. Frank não reclamou, apenas suspirou e virou-se para a
janela em modos preguiçosos, sem dar a cara para a morena.
- Eu não vejo.
- Claro que não. Agora levante a bunda daí. – Lindsey simplesmente puxou as cobertas do paciente, que lançou lhe um olhar incrédulo (e não se levantou).
- Esqueceu que eu sou um paciente em recuperação? – Fez de tudo para puxar os lençóis de volta, mas a doutora não deixou, segurando o tecido com força.
- Esqueceu que você precisa pedir desculpas pra alguém hoje?
Como era de seu costume, Frank carregava seu tanque de oxigênio pelo
corredor. Desta vez de sapatos e devidamente agasalhado, o ruivo causava
comoção por onde passava. Um menino tão jovem, nessas condições? Seus
passos eram lentos de letargia, porque de fato, doença nenhuma impedia
suas ações.
- Escute aqui. – A doutora puxou o adolescente pelo ombro, encarando-o com uma expressão séria. – Se fizer alguma merda, eu juro por Deus que faço de tudo para te prender aqui por pelo menos mais uma semana.
- Ok, tanto faz.
Frank abriu a porta e encontrou um morto-vivo estirado na cama, com
olhos pregados na janela nublada, de cortinas de cor mostarda forte. O
aleijado preferiu não virar a cabeça. Não queria ver ninguém dentro de
seu quarto, não queria ouvir a voz de ser vivo nenhum. Ignorou
completamente os passos até a janela e fechou os olhos quando sua vista
periférica captou o cabelo vermelho.
- Você está aqui para botar fogo nas cortinas de novo? –
Gerard gemeu, ainda de olhos cerrados. O som do trilho das cortinas
sendo arrastado irritou seus ouvidos, enquanto o sol ardente banhava seu
rosto claro como a neve.
- Nem fodendo. Eu conseguiria te queimar com o sol... - A
língua de Frank estalou dentro da boca. Tudo que ele fazia era
fodidamente sonoro, desde o tanque de oxigênio que carregava até a ponta
dos dedos de seus pés: agora ele empurrara a cadeira de visitantes para
perto da cama de Gerard, sentando-se a encarar ruidosamente o paciente. - ... de tão fraco que é.
Aquilo era rude para caralho, mesmo saindo de uma voz abafada e quase
moribunda. Quem ele pensava que era para dizer aquilo? Ou melhor, por
que dizia aquilo?
- O que você quer? – Gerard soou como um adolescente
respondão, e claro, sempre evitando olhar Frank. Odiava olhar para
pessoas, ainda mais alguém que havia acabado de chama-lo de “fraco”.
- Eu não quero nada. A Lindsey me mandou vir aqui te pedir desculpas e eu não vou fazer isso. – O
ruivo se esparramou na cadeira, colocando os braços para trás. O fato
daquele cara não olhar para si o irritava mais que tudo, mas não podia
deixar isso transparecer em nenhuma linguagem corporal. Pela primeira
vez, aquela porra de máscara de oxigênio servia para algo: esconder sua
raiva.
- Então saia. – A voz de anjo pediu, fraca, obsoleta e
chorosa. Ele nunca conseguiria intimidar ninguém assim. Precisava que
aquele garoto saísse de seu quarto imediatamente, antes que tivesse um
ataque de pânico. Ele claramente era mais novo que Gerard, mas foda-se,
ele o assustava. Queria poder sair correndo, se ainda tivesse as duas
pernas. Sentia que teria que repetir esse desejo em sua mente toda vez
que ele chegasse perto de si.
- Não posso. Ela tem que achar que eu realmente disse algo. Só fique tranquilo, ok? Não vai demorar.
- Vo... você realmente deveria pedir desculpas. – Coragem,
Gerard. É o que você nunca teve, então o que era aquilo? Apenas raiva,
que guiava sua voz trêmula ao enfrentar seu terrorista particular.
- Por que deveria? – Sem ideia alguma do que ele queria, Frank apenas debochou. – Por queimar a ponta da sua cortina feia? Se quer saber, essa é bem mais legal...
- Cala a boca! – Gritou. Gerard agora olhava para aqueles olhos de amêndoa, que o amedrontaram a ponto de molhar os seus de lágrimas. – Eu não quero escutar isso.
- E Você vai fazer o que sobre isso? – Finalmente. Agora
Frank havia conseguido o que queria. Atenção. Ele apoiou as mãos na cama
macia do aleijado, curvando um pouco o torso para encara-lo.
Sua aproximação era perigo eminente. Gerard sabia disso. A máscara,
os olhos, o cabelo vermelho. Tudo naquele garoto era fogo, destruição e
terror. Agora com ele tão perto, ele simplesmente não sabia o que fazer.
Quem sabe gritar por...
- Por que quer pedir ajuda se eu nem te toquei? – Gerard
teve certeza que viu um sorriso maldoso por trás daquela focinheira
plástica. Seus lábios tremeram, porque os olhos, bem, não tinham mais
para onde fugir.
- De que tanto você tem medo, Gerard?
A respiração artificial vinda da bomba de oxigênio desesperava.
Aquele som de ir e vir, inspirar e expirar era freneticamente vicioso,
um aviso de que Deus estava chamando e que o Diabo estava se esforçando
para mantê-lo na terra.
- Eu não tenho medo, eu, você... não! – De cordas vocais rasgadas, o anjo entoou incertezas - Eu só... eu não quero passar por isso de novo!
Seu carrasco continuou sorrindo (ou era somente o reflexo curvo da
luz que reinava no teto do quarto?), sem afastar ou aproximar um
milímetro se quer da distância que tinha em relação a Gerard.
- Você é patético. Vítima da sua própria vitimização.
O moreno não sabia responder. Mesmo que tentasse, suas palavras
seriam cortadas por um gaguejo, uma letra trocada de lugar ou pelo
choro. Frank ainda estava olhando para ele. As joias de seus olhos não
secariam dali tão rápido. Gerard cobriu o rosto com as mãos, mostrando
ao mundo suas palmas ásperas, dedos longos e linhas confusas. Abaixo,
seu pulso carregava marcas.
Frank de onde elas vinham. Mesmo que o reflexo em sua máscara
dissesse outra coisa, ele não estava sorrindo. Seu rosto endureceu de
enojo. Iria fazer-lhe um favor. As mãos do pequeno foram para no pescoço
de Gerard. Tão fino e liso, delicado como louça. Pronto para ser
quebrado em mil pedaços. Ele simplesmente tocou ali, sentindo
sua pele e suas marcas. O olhar sem brilho de Gerard oscilou entre os
braços e pescoço de Frank. Estava distraído demais com o tremor das mãos
do ruivo para ter medo.
- Egoísta. Queria se matar enquanto tem gente como eu lutando contra o câncer?
Como a voz de uma estrela de TV, Frank estava longe, sintonizado por
um satélite a ponto de ruir. O som da respiração metálica parou. O
adolescente olhou para o tanque. Gerard também olhou. O que aconteceu?
Frank soltou o pescoço do moreno rapidamente. Tirou a máscara, tomou
uma posição tensa na cadeira de visitas. Sua boca vermelha (que Gerard
estava fitando pela primeira vez) formou um ‘O’ e pediu ar. Puxou e não o
encontrou. O que aconteceu? Ele estava pedindo ajuda através dos olhos de terror?
Gerard puxou a gola do avental de Frank, trazendo-o para perto. Sua
boca encaixou-se na dele como um peixe que suga água e Frank tomou-lhe o
ar como uma sanguessuga acéfala. A sensação dos lábios de Frank era
como a que os olhos de Gerard sentiam ao mirar seu cabelo.
Vermelho. Seus lábios eram vermelhos, tinham gosto de vermelho, despejavam vermelho. Gerard provou vermelho e fogo.
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