A máscara de oxigênio não estava no lugar certo. Pendurada no pescoço
como uma medalha de fracassado, era inútil: continuava ruidosa, mas não
servia para nada. O pulmão de Frank não estava completamente
recuperado, o que explicava a crise de falta de ar que acontecera no
quarto de Gerard. Com os cotovelos apoiados no para-peito da janela do
seu quarto reservado de hospital, ele arranhou um fósforo na parte
áspera da caixinha, viu a faísca dançar por causa de uma corrente fina
de vento e colocou-o na boca, simulando um cigarro.
A vida continuava lá embaixo. Na vista da janela, ele podia ver
pessoas e carros, uma Nova Iorque movimentada que ele não podia
aproveitar. Frank, acima de tudo, era um amante do caos. Ouvir as
buzinas, os gritos, as conversas e o “clac clac” das construções era
como música para seus ouvidos. Ele cuspiu o fósforo que estava em sua
boca e assistiu sua queda. O vento apagou a chama antes que atingisse o
chão.
Quando fora internado outras vezes, fazia de tudo para sair o quanto
antes do hospital. Naquele dia, não. Frank não queria descer. Sua
expressão não era de tédio ou pavor de estar ali. Ele estava aguardando.
Parecia ter encontrado seu caos particular. A porta do seu quarto
abriu. A psicóloga de plantão, a mais competente do hospital, vestia um
sorriso calmo e um jaleco branco. Ele olhou para trás e deu de ombros,
voltando a acender um fósforo que seria brutalmente atirado pela janela.
- Frank... onde arranjou essa caixa de fósforos? – A mulher
se aproximou, olhando-o com cautela. O ruivo saiu de perto; foi
deitar-se na cama, sem soltar a caixinha preciosa. Depois de anos
atendendo Frank, ela ainda não tinha espaço para uma aproximação mais
agressiva. Se sentou ao lado da cama dele e tentou manter a calma.
- Como você está? Não deveria estar usando a máscara de oxigênio?–
Perguntou, mantendo os olhos nos dele. O dedo indicador de Frank
batucava a caixinha, os fósforos que estava ali dentro chacoalhavam como
gente dentro de ônibus.
- Se eu estivesse com ela, nós não conseguiríamos conversar.
- Quer dizer que hoje você vai falar comigo?
Frank fez menção de que ia colocar a máscara novamente, mas a
psiquiatra fez um sinal de não tão sutil que nem combinava com a
palavra. Sua voz era tão suave quanto seus movimentos, ao contrário da
Dra. Lindsey, Jamia era tímida e recatada. Sua delicadeza costumava
conquistar os pacientes e colegas de trabalho, mas isso não funcionava
com o adolescente.
- Espere. Nós podemos falar sobre o que você quiser hoje. Da
mesma forma que você conversa com a Dra. Lindsey, pode confiar em mim.
Vou escutar.
Ele ficou alguns segundos encarando aquele sorriso acanhado. Frank
não sabia como aquela alma pura havia sobrevivido à faculdade.
Ajeitou-se na cama, adaptando-se a dureza do colchão.
- Você é republicana, Doutora Nestor? –Ele perguntou, em um tom despretensioso.
- Pode me chamar de Jamia – Disse, sem jeito. Hesitou ao
responder a pergunta, tirou os fios de cabelo do rosto e passou a fitar
olhos âmbarcom mais clareza. – Minha família é. Eu não tenho uma preferência política...
- Você é apartidária, então, Jamia?
- Bem, eu optei por votar nas últimas eleições...
- Bush, eu suponho?
- Escute, Frank, a orientação que me foi passada é de não tocar
no assunto político com você. Podemos falar de outras coisas, sim?
O garoto deu uma daquelas risadinhas finas, e voltou a tirar um
fósforo da sua caixinha querida. Acendeu-o e mostrou a chama para a
doutora.
- Eu prefiro ver você pegando fogo a conversar sobre algo que você quer.
Jamia observou o fósforo acesso incrédula, com lábios entre abertos e
sobrancelhas levantadas. Ela assoprou o fósforo como se fosse uma vela
de aniversário, e arrancou a caixa de fósforos da mão dele com uma
rapidez que até mesmo Frank se surpreendeu. Não a caixinha de volta,
apenas suspirou e voltou-se para a janela, ignorando a presença da
mulher ali.
- Se você falar o bastante para eu fazer um relatório hoje, eu destranco a porta.–
Maliciou furtivamente, sabendo, obviamente, que isso não era permitido.
Frank virou-se para ela com olhos interessados, os lábios curvados
cheios de satisfação.
- Me fale sobre o cara sem perna.
//
Quando as enfermeiras ouviram o som dos saltos altos da Dr. Lindsey,
sabiam que a situação estava resolvida, mesmo que estivessem com os
braços cansados de segurar um paciente em pleno ataque de histeria a
mais de 30 minutos. Eram oito mulheres no total para segurar aquele
homem adulto de 24 anos. Gerard não era tão forte, mas era insistente e
frenético. Ao menos, a presença da Doutora equivalia a cem enfermeiras
muito bem treinadas. Quem sabe até mais.
Os berros de Gerard ricocheteavam nas paredes excessivamente
desinfetadas e ecoavam pelos corredores: os pacientes que tinham medo de
hospital, agora, tinham certeza que entrar ali era fazer um check-in no
purgatório. Lindsey não se intimidou. Sua face permanecia reta e
disciplinada, queixo empinado em cada passo marcante no piso frio. Os
sapatos barulhentos pararam na porta do quarto de Gerard. As enfermeiras
se afastaram do paciente e, aliviadas, sumiram dali antes que a doutora
pudesse repreendê-las. Não havia ninguém para reportar a situação
atual, somente um Gerard suado, descabelado e um pouco mais calmo por
ter sido solto pelas mãos das malvadas enfermeiras.
- O que aconteceu aqui?
Gerard nunca havia ouvido uma voz de mulher tão convicta. Não era
autoritária como a de sua mãe, que o mandava fazer o que era preciso
apenas por obrigação de ser sua mãe. Aquela mulher de jaleco branco e
batom vermelho vivo tinha controle sobre a situação. Sua voz era tão
incorporada quanto a de um homem, sem perder a ternura de alguém de
confiança. Bem, isso não importava. Para Gerard, ela era somente mais
uma pessoa que queria enfiar uma agulha no seu braço.
Essa era possivelmente a ameaça que mais amedrontava Gerard. Sua
paranóia havia começado na infância, sem a necessidade de que um trauma
fosse afligido. Apenas tinha medo de agulhas porque tinha medo de
agulhas. Ele podia escorregar uma lâmina afiada pelos pulsos até
sangrar, mas simplesmente não podia ser picado. Quando sua médica tentou
explicar-lhe que por causa de seu quadro, não adiantaria mais ingerir
antibióticos e eles teriam que ser administrados via venal, ele se
apavorou. Repetiu “Não, não, não nãonãonãonão” antes dos gritos e
depois, tentou correr, inutilmente, claro. Então, tentou se arrastar,
assim como havia feito quando o pequeno punk de cabelos vermelhos ateou
fogo a sua cortina. A Dr. Lindsey não precisava do resumo da situação.
Ela já havia entendido o que havia acontecido ali. A pergunta, no
entanto, precisava ser feita, porque sua resposta era uma reação.
- Não vou deixar. – A voz hesitante chorou e a médica suspirou calmamente, puxando uma cadeira para se sentar ao lado da cama do paciente.
- Tente outra vez. Como você não vai deixar?– Ela provocou, mesmo que seus lábios vermelhos continuassem retos, sem esboçar expressão alguma.
- Eu não quero. – Os olhos de Gerard fugiram para a cortina,
tentando fitar o que era a escapatória do sol em um fim de tarde.
Esfregava os próprios dedos incessantemente, trêmulo e nervoso.
- Eu também não queria estar aqui, depois de voltar de um
plantão, atendendo um belonofóbico que nem ao menos é meu paciente, mas
estou. Engraçado, não?
Gerard calou-se. Odiava ser classificado daquela maneira. “Suicida”,
“belenofóbico”, “anti-social”, “depressivo”. Ele sentia que, ao decorrer
dos anos, as únicas coisas que o definiam eram esses rótulos. Rótulos
são sempre criados por outras pessoas. Se ele pudesse escolhê-los, teria
usado palavras mais amenas. “Reservado”, “tranquilo”, “tímido”,
“um-pouco-apavorado-por-agulhas”.
- Esse seu pequeno problema pode ser amenizado com terapia. Mas
adivinhe? Eu não sou psicoterapeuta e nós não temos tempo para um
tratamento de mais de dois anos.
- Eu não...
- Você precisa receber sua dose dessa maneira. E vai ser assim, queira ou não. Entendido?
O rapaz protestou com os olhos cheios de medo, mas não se moveu mais.
Apenas segurava a dobra do braço com força, até que sua pele ficasse
tão vermelha quanto as cicatrizes que carregava no pulso. Os olhos de
Lindsey pairaram ali e Gerard fitou os lábios de vermelho artificial,
cedendo um pouco o aperto no braço direito.
- Eu não vou deixar você morrer, entendeu? – A mulher
afirmou, com uma voz de certeza que Gerard nunca havia ouvido nem em
seus mais convictos desejos suicidas. Ele soltou o braço aos poucos, e a
doutora aplicou-lhe o soro com muito cuidado.
O rapaz não deixava de fitar aqueles lábios cobertos de batom.
Perguntou-se se os lábios que havia beijado no dia anterior ficariam bem
vestidos com o mais caro batom vermelho paixão. Não. Aqueles lábios não
eram como o vermelho da doutora Lindsey. Eles eram naturais, quentes e
secos. Vagarosamente, o líquido começava a adentrar suas veias. Ele nem
havia sentido a picada da tão temida agulha e agora seus olhos se
fechavam. A doutora segurou sua mão de maneira leve, uma suavidade que
não combinava com sua voz. Gerard adormeceu, pensando em como seria
tocar os lábios da doutora Lindsey com os seus. Seriam eles frios,
molhados e suaves?
//
Olhos âmbar grandes e brilhantes, boca vermelha de traços delicados,
nariz arredondado; tudo perfeitamente emoldurado em um rosto quadrado,
de queixo fino e madeixas avermelhadas que quando não estavam em pé por
causa do gel, lhe caíam perto dos olhos e nas laterais das bochechas.
Era como um pequeno diabinho de brinquedo, principalmente quando o
travesseiro bagunçava seu cabelo e ficava com duas mechas em pé, como
dois chifres de mentira. Jamia não conseguira escapar, mesmo aquela
trapaça sendo tão evidente. Seu tom de voz era confiante para um garoto
de apenas 15 anos; ele falava como um empresário que sabe que está
comprando as ações certas. E Jamia, bem, Jamia gostava dele. Ela era uma
das médicas mais jovens do hospital, não era muito enturmada com a
equipe, formada por médicos mais velhos, que acreditavam que a
experiência dela era pouca para trabalhar em um hospital daquele porte.
Seu divertimento naquele ambiente era conversar com seus pacientes. Na
realidade, ela tinha uma grande empatia por todas as pessoas que
atendia, e Frank, com toda sua peculiaridade, chamava sua atenção.
- Ele não fala muito... – Dizia a moça, um pouco encabulada por estar na mira dos olhos âmbar do menino.
- O que ele fala?
- Quase nada.
- Mas o que?
- Eu não...
Frank estava ficando impaciente. Além de aquela mulher ter roubado
sua caixinha de fósforos, estava o fazendo perder seu tempo. Ele pegou a
máscara de oxigênio, tragou um pouco de ar e suspirou.
- Você prometeu.
- Eu não prometi nada, Frank... – Aquilo era quebra de ética
entre paciente e médico. Ela sabia que Frank tinha consciência disso e
sabia que ele usaria de todo e qualquer recurso para conseguir o que
queria. –Me responda algo antes. – Disse, mais rápida que a própria boca.
- Por que fez aquilo com ele?
O ruivo percebeu os traços agoniados da moça, como se ele tivesse
ateado fogo no paciente do quarto ao lado. Não era verdade, ele só havia
incendiado as cortinas. Eram coisas muito diferentes.
- Eu não fiz por mal. Eu só queria deixar ele esperto. – Disse, desviando o olhar.
- O que quer dizer? – Jamia insistiu, segurando o pulso do
garoto. Ele estranhou, mas não recuou. Focou-se no rosto da moça, e
sorriu de uma maneira que nem mesmo ela conseguia decifrar.
- Você não vai conseguir curar ele. – Frank soltou o pulso da mão dela, e colocou uma mão no pescoço da moça, de maneira carinhosamente perigosa.
- Ninguém vai.
Jamia saiu de perto do ruivo, escondendo a cara. Foi-se rapidamente
pela porta, levando a folha sulfite da prancheta, onde deveria estar
tomando notas, totalmente vazia. Deixou a porta destrancada.
//
Nenhum comentário:
Postar um comentário