quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

F.T.W! Capítulo 3: Feel The Wrath

A máscara de oxigênio não estava no lugar certo. Pendurada no pescoço como uma medalha de fracassado, era inútil: continuava ruidosa, mas não servia para nada. O pulmão de Frank não estava completamente recuperado, o que explicava a crise de falta de ar que acontecera no quarto de Gerard. Com os cotovelos apoiados no para-peito da janela do seu quarto reservado de hospital, ele arranhou um fósforo na parte áspera da caixinha, viu a faísca dançar por causa de uma corrente fina de vento e colocou-o na boca, simulando um cigarro.
A vida continuava lá embaixo. Na vista da janela, ele podia ver pessoas e carros, uma Nova Iorque movimentada que ele não podia aproveitar. Frank, acima de tudo, era um amante do caos. Ouvir as buzinas, os gritos, as conversas e o “clac clac” das construções era como música para seus ouvidos. Ele cuspiu o fósforo que estava em sua boca e assistiu sua queda. O vento apagou a chama antes que atingisse o chão.
Quando fora internado outras vezes, fazia de tudo para sair o quanto antes do hospital. Naquele dia, não. Frank não queria descer. Sua expressão não era de tédio ou pavor de estar ali. Ele estava aguardando. Parecia ter encontrado seu caos particular. A porta do seu quarto abriu. A psicóloga de plantão, a mais competente do hospital, vestia um sorriso calmo e um jaleco branco. Ele olhou para trás e deu de ombros, voltando a acender um fósforo que seria brutalmente atirado pela janela.
- Frank... onde arranjou essa caixa de fósforos? – A mulher se aproximou, olhando-o com cautela. O ruivo saiu de perto; foi deitar-se na cama, sem soltar a caixinha preciosa. Depois de anos atendendo Frank, ela ainda não tinha espaço para uma aproximação mais agressiva. Se sentou ao lado da cama dele e tentou manter a calma.
- Como você está? Não deveria estar usando a máscara de oxigênio?– Perguntou, mantendo os olhos nos dele. O dedo indicador de Frank batucava a caixinha, os fósforos que estava ali dentro chacoalhavam como gente dentro de ônibus.
- Se eu estivesse com ela, nós não conseguiríamos conversar.
- Quer dizer que hoje você vai falar comigo?
Frank fez menção de que ia colocar a máscara novamente, mas a psiquiatra fez um sinal de não tão sutil que nem combinava com a palavra. Sua voz era tão suave quanto seus movimentos, ao contrário da Dra. Lindsey, Jamia era tímida e recatada. Sua delicadeza costumava conquistar os pacientes e colegas de trabalho, mas isso não funcionava com o adolescente.
- Espere. Nós podemos falar sobre o que você quiser hoje. Da mesma forma que você conversa com a Dra. Lindsey, pode confiar em mim. Vou escutar.
Ele ficou alguns segundos encarando aquele sorriso acanhado. Frank não sabia como aquela alma pura havia sobrevivido à faculdade. Ajeitou-se na cama, adaptando-se a dureza do colchão.
- Você é republicana, Doutora Nestor? –Ele perguntou, em um tom despretensioso.
- Pode me chamar de Jamia – Disse, sem jeito. Hesitou ao responder a pergunta, tirou os fios de cabelo do rosto e passou a fitar olhos âmbarcom mais clareza. – Minha família é. Eu não tenho uma preferência política...
- Você é apartidária, então, Jamia?
- Bem, eu optei por votar nas últimas eleições...
- Bush, eu suponho?
- Escute, Frank, a orientação que me foi passada é de não tocar no assunto político com você. Podemos falar de outras coisas, sim?
O garoto deu uma daquelas risadinhas finas, e voltou a tirar um fósforo da sua caixinha querida. Acendeu-o e mostrou a chama para a doutora.
- Eu prefiro ver você pegando fogo a conversar sobre algo que você quer.
Jamia observou o fósforo acesso incrédula, com lábios entre abertos e sobrancelhas levantadas. Ela assoprou o fósforo como se fosse uma vela de aniversário, e arrancou a caixa de fósforos da mão dele com uma rapidez que até mesmo Frank se surpreendeu. Não a caixinha de volta, apenas suspirou e voltou-se para a janela, ignorando a presença da mulher ali.
- Se você falar o bastante para eu fazer um relatório hoje, eu destranco a porta.– Maliciou furtivamente, sabendo, obviamente, que isso não era permitido. Frank virou-se para ela com olhos interessados, os lábios curvados cheios de satisfação.
- Me fale sobre o cara sem perna.

//
 
Quando as enfermeiras ouviram o som dos saltos altos da Dr. Lindsey, sabiam que a situação estava resolvida, mesmo que estivessem com os braços cansados de segurar um paciente em pleno ataque de histeria a mais de 30 minutos. Eram oito mulheres no total para segurar aquele homem adulto de 24 anos. Gerard não era tão forte, mas era insistente e frenético. Ao menos, a presença da Doutora equivalia a cem enfermeiras muito bem treinadas. Quem sabe até mais.
Os berros de Gerard ricocheteavam nas paredes excessivamente desinfetadas e ecoavam pelos corredores: os pacientes que tinham medo de hospital, agora, tinham certeza que entrar ali era fazer um check-in no purgatório. Lindsey não se intimidou. Sua face permanecia reta e disciplinada, queixo empinado em cada passo marcante no piso frio. Os sapatos barulhentos pararam na porta do quarto de Gerard. As enfermeiras se afastaram do paciente e, aliviadas, sumiram dali antes que a doutora pudesse repreendê-las. Não havia ninguém para reportar a situação atual, somente um Gerard suado, descabelado e um pouco mais calmo por ter sido solto pelas mãos das malvadas enfermeiras.
- O que aconteceu aqui?
Gerard nunca havia ouvido uma voz de mulher tão convicta. Não era autoritária como a de sua mãe, que o mandava fazer o que era preciso apenas por obrigação de ser sua mãe. Aquela mulher de jaleco branco e batom vermelho vivo tinha controle sobre a situação. Sua voz era tão incorporada quanto a de um homem, sem perder a ternura de alguém de confiança. Bem, isso não importava. Para Gerard, ela era somente mais uma pessoa que queria enfiar uma agulha no seu braço.
Essa era possivelmente a ameaça que mais amedrontava Gerard. Sua paranóia havia começado na infância, sem a necessidade de que um trauma fosse afligido. Apenas tinha medo de agulhas porque tinha medo de agulhas. Ele podia escorregar uma lâmina afiada pelos pulsos até sangrar, mas simplesmente não podia ser picado. Quando sua médica tentou explicar-lhe que por causa de seu quadro, não adiantaria mais ingerir antibióticos e eles teriam que ser administrados via venal, ele se apavorou. Repetiu “Não, não, não nãonãonãonão” antes dos gritos e depois, tentou correr, inutilmente, claro. Então, tentou se arrastar, assim como havia feito quando o pequeno punk de cabelos vermelhos ateou fogo a sua cortina. A Dr. Lindsey não precisava do resumo da situação. Ela já havia entendido o que havia acontecido ali. A pergunta, no entanto, precisava ser feita, porque sua resposta era uma reação.
- Não vou deixar. – A voz hesitante chorou e a médica suspirou calmamente, puxando uma cadeira para se sentar ao lado da cama do paciente.
- Tente outra vez. Como você não vai deixar?– Ela provocou, mesmo que seus lábios vermelhos continuassem retos, sem esboçar expressão alguma.
- Eu não quero. – Os olhos de Gerard fugiram para a cortina, tentando fitar o que era a escapatória do sol em um fim de tarde. Esfregava os próprios dedos incessantemente, trêmulo e nervoso.
- Eu também não queria estar aqui, depois de voltar de um plantão, atendendo um belonofóbico que nem ao menos é meu paciente, mas estou. Engraçado, não?
Gerard calou-se. Odiava ser classificado daquela maneira. “Suicida”, “belenofóbico”, “anti-social”, “depressivo”. Ele sentia que, ao decorrer dos anos, as únicas coisas que o definiam eram esses rótulos. Rótulos são sempre criados por outras pessoas. Se ele pudesse escolhê-los, teria usado palavras mais amenas. “Reservado”, “tranquilo”, “tímido”, “um-pouco-apavorado-por-agulhas”.
- Esse seu pequeno problema pode ser amenizado com terapia. Mas adivinhe? Eu não sou psicoterapeuta e nós não temos tempo para um tratamento de mais de dois anos.
- Eu não...
- Você precisa receber sua dose dessa maneira. E vai ser assim, queira ou não. Entendido?
O rapaz protestou com os olhos cheios de medo, mas não se moveu mais. Apenas segurava a dobra do braço com força, até que sua pele ficasse tão vermelha quanto as cicatrizes que carregava no pulso. Os olhos de Lindsey pairaram ali e Gerard fitou os lábios de vermelho artificial, cedendo um pouco o aperto no braço direito.
- Eu não vou deixar você morrer, entendeu? – A mulher afirmou, com uma voz de certeza que Gerard nunca havia ouvido nem em seus mais convictos desejos suicidas. Ele soltou o braço aos poucos, e a doutora aplicou-lhe o soro com muito cuidado.
O rapaz não deixava de fitar aqueles lábios cobertos de batom. Perguntou-se se os lábios que havia beijado no dia anterior ficariam bem vestidos com o mais caro batom vermelho paixão. Não. Aqueles lábios não eram como o vermelho da doutora Lindsey. Eles eram naturais, quentes e secos. Vagarosamente, o líquido começava a adentrar suas veias. Ele nem havia sentido a picada da tão temida agulha e agora seus olhos se fechavam. A doutora segurou sua mão de maneira leve, uma suavidade que não combinava com sua voz. Gerard adormeceu, pensando em como seria tocar os lábios da doutora Lindsey com os seus. Seriam eles frios, molhados e suaves?

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Olhos âmbar grandes e brilhantes, boca vermelha de traços delicados, nariz arredondado; tudo perfeitamente emoldurado em um rosto quadrado, de queixo fino e madeixas avermelhadas que quando não estavam em pé por causa do gel, lhe caíam perto dos olhos e nas laterais das bochechas. Era como um pequeno diabinho de brinquedo, principalmente quando o travesseiro bagunçava seu cabelo e ficava com duas mechas em pé, como dois chifres de mentira. Jamia não conseguira escapar, mesmo aquela trapaça sendo tão evidente. Seu tom de voz era confiante para um garoto de apenas 15 anos; ele falava como um empresário que sabe que está comprando as ações certas. E Jamia, bem, Jamia gostava dele. Ela era uma das médicas mais jovens do hospital, não era muito enturmada com a equipe, formada por médicos mais velhos, que acreditavam que a experiência dela era pouca para trabalhar em um hospital daquele porte. Seu divertimento naquele ambiente era conversar com seus pacientes. Na realidade, ela tinha uma grande empatia por todas as pessoas que atendia, e Frank, com toda sua peculiaridade, chamava sua atenção.
- Ele não fala muito... – Dizia a moça, um pouco encabulada por estar na mira dos olhos âmbar do menino.
- O que ele fala?
- Quase nada.
- Mas o que?
- Eu não...
Frank estava ficando impaciente. Além de aquela mulher ter roubado sua caixinha de fósforos, estava o fazendo perder seu tempo. Ele pegou a máscara de oxigênio, tragou um pouco de ar e suspirou.
- Você prometeu.
- Eu não prometi nada, Frank... – Aquilo era quebra de ética entre paciente e médico. Ela sabia que Frank tinha consciência disso e sabia que ele usaria de todo e qualquer recurso para conseguir o que queria. –Me responda algo antes. – Disse, mais rápida que a própria boca.
- Por que fez aquilo com ele?
O ruivo percebeu os traços agoniados da moça, como se ele tivesse ateado fogo no paciente do quarto ao lado. Não era verdade, ele só havia incendiado as cortinas. Eram coisas muito diferentes.
- Eu não fiz por mal. Eu só queria deixar ele esperto. – Disse, desviando o olhar.
- O que quer dizer? – Jamia insistiu, segurando o pulso do garoto. Ele estranhou, mas não recuou. Focou-se no rosto da moça, e sorriu de uma maneira que nem mesmo ela conseguia decifrar.
- Você não vai conseguir curar ele. – Frank soltou o pulso da mão dela, e colocou uma mão no pescoço da moça, de maneira carinhosamente perigosa.
- Ninguém vai.
Jamia saiu de perto do ruivo, escondendo a cara.  Foi-se rapidamente pela porta, levando a folha sulfite da prancheta, onde deveria estar tomando notas, totalmente vazia. Deixou a porta destrancada.
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